Hoje, num determinado instante, ouvi meu
coração bater.
Aquilo me soou tão alto, tão incrível!
Como antes nunca havia escutado aquele
som?
O som que sempre me acompanhara,
O barulho da minha engrenagem ...
Senti-me um tolo, mas ao mesmo tempo
encantado.
E num segundo momento ouvi forte também minha
respiração,
Num volume tão destacado de todos os sons
a minha volta,
Que pensei estar desfalecendo ou algo
assim... Mas não!
Fechei meus olhos e fiquei ali,
Ouvindo aqueles sons tão íntimos e tão
desconhecidos...
Percebi que acabara de abrir alguma porta
que estava fechada em mim.
Pateticamente sorri, ao lembrar-me da
minha idade...
O som do batimento passou então a me causar certa
aflição.
Senti-me um relógio em contagem
regressiva.
Um arrepio me tocou na espinha, após, uma
contração muscular...
E numa breve consideração dimensional do
mundo,
Considerei ainda a brevidade da minha existência...
E o som da minha respiração,
E o som dos meus batimentos,
Ressoavam cada vez mais limpos, mais altos...
Foi então que entendi:
Aquela porta que abri não possuía chave.
Tratava-se, pois, de uma decisão,
De permanecer ouvindo ou não aqueles sons,
De estar vivo ou voltar para os alheios
barulhos mundanos...
(me escolhi)
E d’alí em diante,
Cada passo que dou é projetado por um forte
respirar,
Cada palavra que digo é regida pela
sinfonia do meu pulsar,
E mesmo sabendo que uma hora vou tão
discreto quanto vim,
Já não me assusta mais a contagem
regressiva...
Sou apenas um lampejo.
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